Você passa pelo mesmo corredor, ouve um barulho parecido ou lê uma mensagem que nem parece importante, e o corpo reage como se tudo estivesse acontecendo de novo. O coração dispara, o estômago aperta, dá vontade de sair dali. Depois chega o pensamento mais pesado: já faz tanto tempo, por que eu ainda sou assim? Se você está buscando como superar um trauma emocional, vale começar por uma ideia que muda a pergunta. Superar não é esquecer. É chegar ao ponto em que o passado deixa de comandar o seu presente.
Como superar um trauma emocional: o que isso quer dizer de verdade
Muita gente imagina que superar um trauma é apagar a lembrança, ou conseguir falar do assunto sem sentir nada. Não é isso. A memória continua existindo, e é normal que ela tenha peso. O que muda, com o tempo e com cuidado, é a relação com ela: a lembrança vira algo que aconteceu, e não algo que ainda está acontecendo dentro de você.
Por isso também não existe uma linha de chegada igual para todas. Para uma mulher, superar pode ser voltar a dormir a noite inteira. Para outra, conseguir andar sozinha na rua, confiar de novo em alguém ou parar de se cobrar por reações que ela não escolheu. O trauma não é só o que aconteceu. É também o quanto aquilo foi demais para a sua capacidade de lidar naquele momento, e por isso duas pessoas podem viver a mesma situação e ficar com marcas diferentes. Se você quer entender melhor as formas que ele pode tomar, o artigo sobre tipos de trauma ajuda a se situar.
Por que o corpo continua em alerta
Trauma não fica guardado apenas na memória que você consegue contar. Ele também aparece no corpo e no sistema de alarme: sobressalto fácil, tensão nos ombros, sono leve, sensação de perigo quando nada está acontecendo. Bessel van der Kolk, no livro O corpo guarda as marcas, popularizou essa leitura de que a experiência traumática se expressa também por sensações e reações físicas, não só por pensamentos.
Isso ajuda a entender uma coisa importante: não adianta brigar com o corpo nem tentar convencê-lo na base do argumento. Você pode saber, com toda a lógica, que está em segurança, e o alarme continuar tocando. Dan Siegel chamou de janela de tolerância a faixa em que conseguimos sentir emoções intensas e ainda pensar com clareza. Depois de um trauma, essa janela costuma ficar mais estreita, e parte do trabalho é, aos poucos, ampliá-la. Se quiser reconhecer os sinais no dia a dia, veja também como age uma pessoa traumatizada.
O que costuma atrapalhar
Quase todas as coisas que atrapalham nascem de uma boa intenção: querer se livrar logo do sofrimento. Algumas armadilhas aparecem com frequência:
- Forçar-se a contar tudo de uma vez. Revisitar o que aconteceu sem segurança suficiente pode sobrecarregar em vez de aliviar. Contar é importante, mas depende de condições.
- Comparar dores. “Outras pessoas passaram por coisa pior” ou “não foi tão grave” são frases que invalidam o que você sentiu. O trauma se mede pelo impacto em você, não pelo tamanho que os outros dão ao fato.
- Cobrar-se por ainda não ter superado. A autocrítica soma uma segunda camada de sofrimento por cima da primeira e mantém o corpo em tensão.
- Isolar-se. Evitar as pessoas pode parecer proteção, mas a solidão costuma aumentar o alarme interno.
- Anestesiar-se com ocupação. Trabalhar sem parar, preencher cada hora do dia, nunca ficar em silêncio. Funciona por um tempo, mas o que não foi cuidado costuma cobrar depois, em forma de cansaço, irritação ou crises de ansiedade.
O que costuma ajudar
Não existe fórmula, mas há caminhos que costumam dar mais chão para o processo:
- Nomear o que aconteceu. Dar nome, para si mesma, ao que viveu (sem minimizar, sem enfeitar) já organiza parte da confusão. Pode ser em voz baixa, num caderno ou numa conversa com alguém de confiança.
- Uma rotina que regula o corpo. Sono com horário razoável, movimento que você goste, refeições, pausas. E a respiração com a expiração mais longa que a inspiração: inspirar contando até quatro e soltar o ar contando até seis, por exemplo, costuma sinalizar ao corpo que o perigo diminuiu.
- Vínculos seguros. Pelo menos uma pessoa com quem você possa ser inteira, sem precisar explicar ou performar.
- Observar os sinais do corpo sem brigar com eles. Em vez de “de novo isso”, experimentar “o corpo está em alerta agora”. Notar já cria uma distância pequena e valiosa.
- Ajuda profissional. Quando o assunto é grande, ter alguém que cuide do ritmo e da segurança faz diferença.
Em todos esses pontos vale a mesma ordem: primeiro segurança, depois, se e quando fizer sentido, revisitar o que aconteceu. O ritmo é sempre o seu. Ninguém precisa abrir a história inteira para começar a se sentir melhor.
Sinais de que vale procurar terapia do trauma
Cuidar-se sozinha é possível em muitos momentos, mas há sinais de que contar com acompanhamento pode ser um passo importante:
- lembranças, pesadelos ou cenas que invadem o dia sem aviso;
- evitar lugares, pessoas, datas ou assuntos para não sentir o que vem junto;
- estar sempre em alerta, com sono ruim, irritação ou sobressaltos;
- sensação de estar desligada, anestesiada ou distante de si mesma;
- culpa e vergonha que não se explicam pelos fatos;
- dificuldade de confiar, de se aproximar ou de manter relações;
- o sofrimento atrapalhando trabalho, sono, saúde ou convivência.
Você não precisa de um diagnóstico para pedir ajuda. Basta sentir que o peso passou do que você consegue carregar sozinha. Quem faz avaliações e diagnósticos é a profissional de saúde, e, em alguns casos, uma avaliação psiquiátrica também entra no cuidado.
Se a dor ficar grande demais e surgirem pensamentos de acabar com a própria vida, ligue para o CVV, no 188, gratuito e disponível 24 horas. Se você vive uma situação de violência agora, o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) orienta e acolhe, e em risco imediato o número é o 190.
Como eu trabalho a terapia do trauma
No consultório, o ponto de partida é a Abordagem Centrada na Pessoa: o processo é construído a partir do que você traz, no seu tempo, sem roteiro fixo. A partir daí, uso a Focalização, que ajuda a prestar atenção ao que o corpo sente antes de transformar em palavras, e a Psicologia Somática, que trabalha a regulação do corpo no presente. O objetivo não é remexer o passado a qualquer custo, e sim criar segurança suficiente para que o que ficou guardado possa se mover aos poucos. Para conhecer o trabalho completo, veja a página de terapia para trauma emocional.
Atendo no consultório na Praia da Costa, em Vila Velha, e também online, por videochamada, com sessões de 50 minutos de segunda a sexta. Se for mais prático para você, conheça como funciona o atendimento online para mulheres.
Perguntas frequentes
É possível superar um trauma sozinha?
Algumas mulheres encontram alívio com rotina de cuidado, vínculos seguros e tempo, principalmente quando a experiência foi pontual. Quando o trauma foi intenso ou repetido, ou quando atrapalha sono, trabalho e relações, ter uma psicóloga ajuda porque o ritmo e a segurança passam a ser cuidados por alguém com formação para isso. Buscar ajuda não é fraqueza.
Quanto tempo leva para superar um trauma?
Não existe prazo certo, e comparar o seu tempo com o de outra pessoa costuma atrapalhar. O percurso depende de fatores como o tipo e a duração do que foi vivido, se a situação já terminou, a rede de apoio que você tem, o que mais está pesando na sua vida agora e o ritmo em que você se sente segura para avançar.
O que fazer quando a lembrança volta de repente?
Primeiro, trazer o corpo para o agora: apoiar os pés no chão, olhar em volta e nomear em voz baixa três coisas que você está vendo, soltar o ar devagar. Depois, lembrar a si mesma que aquilo é uma lembrança, não o acontecimento. Se isso se repete com frequência ou com muita intensidade, é um bom motivo para conversar com uma psicóloga.
Um trauma antigo pode voltar a incomodar anos depois?
Pode. Uma data, uma fase de mais cansaço, uma mudança de vida ou uma situação parecida com a original podem reativar reações que pareciam quietas. Isso não significa que você voltou ao começo. Muitas vezes é um sinal de que há algo ainda pedindo cuidado, e conversar com uma profissional pode ajudar a entender o que se mexeu.
Se você sente que chegou a hora de cuidar disso, no seu ritmo e sem pressa, será um prazer conversar. Você pode me chamar pelo WhatsApp (27) 98127-1317 ou pela página de contato, para atendimento presencial na Praia da Costa ou online.
Psicóloga Lorena Silveira · CRP 16/1805