O coração dispara no meio da fila do mercado. O ar parece curto, as mãos formigam, o chão perde a firmeza e vem a certeza de que algo grave está acontecendo. Minutos depois, o pico passa e sobra o cansaço, junto com uma pergunta: “e se acontecer de novo?” Quando essa pergunta começa a organizar a sua rotina, vale conhecer a síndrome do pânico, nome popular do transtorno de pânico.
Este texto explica o que ela é, quais são os sintomas, por que o medo da próxima crise pesa tanto e como a psicoterapia trabalha com isso. Ele serve para você se reconhecer e entender o que se passa, não para se diagnosticar. O diagnóstico é feito por profissional.
Ataque de pânico e síndrome do pânico não são a mesma coisa
Ataque de pânico é um episódio: uma onda súbita de medo intenso ou desconforto que atinge o pico em minutos. Segundo o DSM-5-TR, manual que orienta diagnósticos em saúde mental, ele envolve ao menos 4 sintomas físicos ou cognitivos de uma lista de 13. Uma pessoa pode ter um ataque isolado, em uma fase de muito estresse, e nunca mais passar por isso.
A síndrome do pânico, que o manual chama de transtorno de pânico, é outra coisa. Ela envolve:
- ataques de pânico recorrentes e inesperados, que surgem sem um gatilho claro;
- seguidos de pelo menos um mês de preocupação persistente com novas crises, ou de mudança de comportamento para evitá-las.
É essa segunda parte que define o transtorno. Não é só a crise, é o que ela passa a fazer com a sua vida depois. O DSM-5-TR aponta que o transtorno é mais frequente em mulheres. O manual não indica uma causa única para isso, e vale desconfiar de explicações simples demais.
Sintomas do transtorno de pânico: o que acontece no corpo e na cabeça
Durante uma crise, é comum que a mulher descreva:
- coração disparado ou batendo com força;
- falta de ar ou sensação de sufocamento;
- dor ou aperto no peito;
- tontura, sensação de desmaio ou de chão instável;
- formigamento ou dormência nas mãos, nos pés ou no rosto;
- suor, tremores, calafrios ou ondas de calor;
- náusea ou desconforto no estômago;
- sensação de que o ambiente não é real (desrealização) ou de estar distante de si mesma (despersonalização);
- medo de perder o controle, de “enlouquecer” ou de morrer.
Nem toda crise traz todos esses sinais. O que existe é um sistema de alarme do corpo disparando sem que haja um perigo externo à altura. Os sintomas são reais, não são drama nem “coisa da sua cabeça”, e é por isso que ouvir esse tipo de frase ajuda tão pouco.
O medo do medo: como a síndrome do pânico se instala
Depois de uma crise intensa, o corpo aprende a ficar de sentinela. Qualquer batimento mais forte, qualquer tontura, vira sinal de que a próxima está vindo. Essa vigilância faz sensações comuns parecerem ameaça, e a ameaça alimenta o próprio alarme. É o que se chama de medo do medo.
Para se proteger, muitas mulheres passam a evitar: dirigir, elevadores, mercados, ônibus, ficar sozinhas em casa, atividade física porque acelera o coração. No começo, evitar alivia. Com o tempo, o mundo vai ficando menor. Quando o medo se concentra em situações das quais seria difícil sair ou receber ajuda, fala-se em agorafobia, que pode aparecer junto com o transtorno de pânico. Não vou aprofundar aqui, mas vale saber que ela existe e que também pode ser acompanhada em terapia.
Primeira crise ou dor no peito: comece pelo atendimento médico
Se foi a sua primeira crise, ou se há dor no peito, falta de ar intensa ou qualquer sintoma que pareça diferente do habitual, busque atendimento médico para descartar outras causas. Problemas cardíacos, da tireoide e outras condições podem dar sintomas parecidos. Em caso de urgência, ligue para o SAMU 192.
Esse cuidado não é exagero e não quer dizer que ninguém acredita em você. A psicoterapia entra melhor depois que o corpo foi avaliado, e ouvir de um médico o que o corpo tem e o que não tem também ajuda a organizar o medo.
Tratamento psicológico da síndrome do pânico: como eu trabalho
No consultório, o ritmo é sempre o seu. Na terapia do pânico, a ideia não é brigar com as sensações, mas mudar a sua relação com elas. Combino alguns caminhos, conforme cada mulher:
- Abordagem Centrada na Pessoa. É a base. Uma relação em que você pode dizer o que sente sem ser corrigida nem apressada, e em que o sintoma é entendido como parte da sua história, não como defeito.
- Psicologia Somática. Trabalha com o corpo para que ele reconheça sinais de segurança, como o apoio do corpo na cadeira, o ritmo da respiração, os pés no chão. O foco é ampliar a sua capacidade de ficar com a sensação sem ser arrastada por ela.
- Focalização. Criada por Eugene Gendlin, ajuda a se aproximar da “sensação sentida” de forma gradual, com distância suficiente para não ser engolida por ela.
- Mindfulness. Prática de atenção ao momento presente, usada com cuidado. Para algumas mulheres, observar a respiração ou o corpo aumenta a ansiedade no início, por isso costumo começar por âncoras mais neutras, como os sons do ambiente ou o contato dos pés com o chão.
- Hipnoterapia Ericksoniana. Só quando faz sentido para você, e a decisão é combinada em conjunto. Pode ser um recurso para acessar uma sensação de calma e recursos que você já tem.
Em alguns casos, a avaliação psiquiátrica faz parte do cuidado. Quando esse for o caso, é uma conversa a mais, a ser feita com o profissional médico, e não um substituto da psicoterapia.
Pânico e trauma: duas camadas, um cuidado só
Nem todo pânico nasce de trauma. Mas, em algumas mulheres, o sistema de alarme foi treinado em um tempo em que viver em alerta era necessário. Nesses casos, olhar só para a crise de hoje pode deixar de fora parte do que mantém o alarme ligado. Quando há história de trauma, trabalho as duas camadas: o que acontece no corpo agora e o que ele aprendeu antes. Se quiser entender melhor esse caminho, leia sobre a terapia para trauma emocional e sobre o TEPT em mulheres.
Atendo no consultório presencial, na Praia da Costa, em Vila Velha, e também online, por videochamada, para quem mora longe ou prefere começar de casa. É você quem define o passo. Se sair de casa é difícil nesta fase, o atendimento online para mulheres pode ser um ponto de partida.
Perguntas frequentes
Síndrome do pânico é para sempre? Tem tratamento?
Não dá para prever, porque cada história é diferente. O que se pode dizer é que o transtorno de pânico pode ser acompanhado em psicoterapia, com avaliação médica quando necessária. O objetivo realista é que as crises percam força, deixem de comandar a sua rotina e que o medo da próxima diminua com o tempo, no seu ritmo.
Qual a diferença entre ataque de pânico e síndrome do pânico?
O ataque é o episódio: uma onda súbita de medo, com sintomas no corpo e pico em minutos. A síndrome, ou transtorno de pânico, é o quadro em que os ataques voltam de forma inesperada e, por pelo menos um mês, você vive com medo de novas crises ou muda hábitos para evitá-las. Dá para ter um ataque sem ter o transtorno.
Ataque de pânico pode matar?
Em geral, o ataque de pânico em si não representa risco à vida, embora pareça. O problema é que os sintomas lembram os de condições cardíacas e outras, por isso a primeira crise, ou uma crise com dor no peito, deve ser avaliada por um médico. Em urgência, SAMU 192. Depois da avaliação, a sensação de morte iminente pode ser entendida como parte do próprio ataque.
Preciso tomar remédio?
Essa decisão é médica, e não cabe a um texto nem a mim indicá-la. A avaliação psiquiátrica às vezes faz parte do cuidado, e a psicoterapia pode acontecer junto com ela ou separada. Você não precisa decidir isso sozinha: conversar com um profissional de saúde sobre o seu caso é um bom começo.
Se as crises estão ocupando espaço demais na sua vida, você pode conversar comigo, sem pressa, pelo WhatsApp (27) 98127-1317 ou pela página de contato. O atendimento é presencial na Praia da Costa ou online.
Psicóloga Lorena Silveira · CRP 16/1805