Terapia para trauma emocional: como funciona e quando procurar

Terapia para trauma emocional: entenda as fases do processo, o que cada abordagem faz na prática e como são as primeiras sessões, presencial ou online.

Há experiências que terminam no calendário, mas continuam no corpo. A situação já passou, a vida seguiu, e mesmo assim certos sons, lugares ou discussões fazem o coração disparar, o sono ficar leve e a cabeça voltar para um ponto que você gostaria de ter deixado para trás. A terapia para trauma emocional existe para esse cenário: um cuidado psicológico pensado para quem carrega as marcas de algo que foi demais para ser processado na hora. Este texto explica o que é trauma, como a terapia costuma se organizar, o que cada abordagem que uso faz na prática e como é começar.

O que é trauma emocional

Trauma emocional não é o fato em si, e sim o que aquele fato provocou em você. Quando uma experiência ultrapassa a sua capacidade de lidar com ela naquele momento, corpo e mente podem ficar presos em estado de defesa, mesmo muito tempo depois. Por isso duas pessoas podem viver a mesma situação e sair dela de formas diferentes. Não é fraqueza nem exagero.

O trauma pode vir de um acontecimento único, como um acidente ou uma agressão, ou de situações repetidas ao longo do tempo, como violência dentro de casa, negligência na infância ou relações de controle. A psiquiatra Judith Herman, no livro Trauma e Recuperação, descreveu esse segundo cenário como trauma complexo ou prolongado. A CID-11 também reconhece o TEPT complexo (código 6B41) como um diagnóstico distinto do TEPT. Para ver as formas mais comuns, leia o artigo sobre tipos de trauma.

Sinais de que é hora de procurar terapia para trauma emocional

Você não precisa esperar a situação ficar insuportável. Alguns sinais indicam que um acompanhamento pode ajudar:

  • lembranças, imagens ou pesadelos que voltam sem convite;
  • reações fortes, no corpo ou nas emoções, a algo que lembra o que aconteceu;
  • evitar pessoas, lugares ou assuntos para não sentir o que vem junto;
  • estado constante de alerta, com sobressaltos, tensão e dificuldade para relaxar;
  • sensação de estar anestesiada, desligada ou distante de si mesma;
  • culpa, vergonha ou desconfiança que parecem maiores do que a situação explica;
  • crises de ansiedade ou de pânico, tristeza persistente ou cansaço que não passa;
  • relações, trabalho ou saúde sendo afetados.

Esses sinais podem aparecer logo depois do acontecimento ou meses, até anos, mais tarde. Veja também como age uma pessoa traumatizada. Quando o conjunto de sintomas é intenso e duradouro, pode se tratar de TEPT, um diagnóstico que só uma avaliação profissional pode confirmar. Em alguns casos, uma avaliação psiquiátrica também faz parte do cuidado.

Se a dor estiver tão grande que surjam pensamentos de acabar com a própria vida, ligue para o CVV, no 188, gratuito e disponível 24 horas. Se você vive violência agora, o Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) acolhe e orienta, e em risco imediato o número é o 190.

Como funciona a terapia do trauma: três fases

Existem formas diferentes de organizar o cuidado, mas um modelo muito usado para entender o processo é o descrito por Judith Herman. Ele divide a recuperação em três fases. Na prática elas não são degraus rígidos: é comum ir e voltar entre elas.

1. Segurança e estabilização

Antes de falar do que aconteceu, o trabalho é criar chão. Isso inclui reconhecer o que o seu corpo faz quando entra em alerta, aprender formas de se acalmar, cuidar do sono e da rotina, e, quando for o caso, pensar em segurança concreta na sua vida. Dan Siegel chamou de janela de tolerância a faixa em que conseguimos sentir emoções fortes e ainda pensar com clareza. Nesta fase, o objetivo é ampliar essa janela, para que o que vier depois não seja avassalador. É ela que sustenta as demais.

2. Elaboração, no ritmo da pessoa

Com mais estabilidade, é possível se aproximar da experiência, aos poucos e com dosagem. Isso não significa despejar a história inteira numa sessão. Significa dar espaço para que o vivido seja reconhecido, nomeado e sentido, inclusive o luto pelo que se perdeu, de modo que deixe de ser uma coisa solta e invasiva e passe a ser parte da sua história. Quem decide o ritmo é você.

3. Reconexão com a vida

Aqui o foco se volta para o presente e o futuro: retomar interesses, reconstruir confiança em si e nas outras pessoas, rever limites, reencontrar prazer e projetos. A pergunta deixa de ser “o que aconteceu comigo” e passa a incluir “o que eu quero agora”. Se você está se perguntando como chegar até aí por conta própria, também escrevi sobre como superar um trauma emocional.

As abordagens que uso e o que cada uma faz na prática

Trabalho com sete abordagens que se combinam conforme o seu momento e a sua história. Nenhuma é aplicada como protocolo fixo: a escolha é feita junto com você.

Abordagem Centrada na Pessoa

É a base de tudo. Proposta por Carl Rogers, parte da ideia de que você é quem mais conhece a sua própria experiência e de que um vínculo com escuta atenta, respeito e ausência de julgamento cria as condições para o processo andar. Na prática, isso quer dizer que não há roteiro imposto: o que você traz, no seu tempo, conduz o trabalho. Ser escutada já é parte do cuidado.

Focalização, com ênfase em cuidados ao trauma

Criada pelo filósofo e psicólogo Eugene Gendlin, a Focalização trabalha com o felt sense, a “sensação sentida”: aquele sentido corporal, ainda sem palavras, de uma situação ou de uma emoção. Na prática, aprendemos a prestar atenção a essa sensação com curiosidade e a uma distância confortável, deixando que ela se esclareça. Com o cuidado voltado ao trauma, o foco é se aproximar sem ser engolida, e poder parar ou desacelerar sempre que for necessário.

Psicologia Somática

Parte do princípio de que o trauma se expressa também no corpo: tensão, respiração curta, sobressalto, sensação de aperto ou de desligamento. Em vez de apenas conversar sobre o que aconteceu, a Psicologia Somática inclui perceber como o corpo reage agora e experimentar formas de regular o alerta, como ajustar a respiração, sentir o apoio dos pés no chão, mover-se ou fazer pausas. Bessel van der Kolk, em O corpo guarda as marcas, ajudou a levar essa discussão para o grande público.

Hipnoterapia Ericksoniana

A hipnoterapia tem origem no trabalho do psiquiatra Milton H. Erickson. Não se parece em nada com a hipnose de palco. É um estado de atenção concentrada, consciente, parecido com estar absorta em um livro ou em uma música, no qual a conversa usa linguagem indireta, metáforas e respeito aos recursos que você já tem. Você não perde o controle nem faz nada contra a sua vontade. No trabalho com trauma, ela pode ajudar na regulação, no acesso a uma sensação de segurança e a recursos internos, às vezes sem precisar descrever cada detalhe em voz alta.

Duas ressalvas importantes. Primeiro, ela não é usada para “recuperar memórias”: esse não é o objetivo e não é uma prática segura. Segundo, nem sempre é indicada. A decisão é conjunta, depois de uma conversa sobre o que você deseja e sobre como se sente com a ideia. O Conselho Federal de Psicologia reconhece a hipnose como recurso auxiliar de trabalho da psicóloga, na Resolução CFP nº 013/2000.

Mindfulness

É a prática de levar a atenção ao momento presente, sem julgamento. Na terapia do trauma, uso com cuidado: para algumas mulheres, ficar em silêncio e voltar a atenção para dentro pode trazer à tona o que está difícil. Por isso, adapto as práticas, com olhos abertos se for melhor, âncoras no ambiente e duração curta, para que sirvam como apoio e não como mais uma exigência.

Psicologia Positiva

Não é pensar positivo nem negar a dor. É olhar também para o que já funciona em você: forças, valores, relações que sustentam e fontes de sentido. Em processos de trauma, ajuda a lembrar que a sua história não se resume ao que doeu.

Práticas Restaurativas

Têm como foco as relações: o que se rompeu, o que precisa de reparação e como reconstruir pertencimento e confiança. Isso se dá por meio de diálogo, responsabilização e cuidado, sem pressão. Quando o trauma envolveu outras pessoas, isso não significa se reconciliar nem confrontar ninguém. Significa, quando e se fizer sentido para você, pensar em formas de recompor vínculos e de se posicionar nas relações com mais firmeza e segurança.

Como é a terapia no consultório e online

O consultório fica na Praia da Costa, em Vila Velha, na R. Prof. Telmo de Souza Torres, 255, sala 101. Também atendo online, por videochamada. As sessões duram 50 minutos e acontecem de segunda a sexta, das 8h às 20h. O atendimento é particular. Veja como funciona a terapia do trauma em Vila Velha no consultório.

Meu trabalho é com mulheres adultas, e o trauma é o foco, o que não impede que ansiedade, síndrome do pânico, burnout, depressão e fobias façam parte da conversa, muitas vezes ligados à mesma história.

O que esperar das primeiras sessões

As primeiras conversas servem para nos conhecermos. Você conta o que a trouxe até aqui, no nível de detalhe que quiser, e eu explico como costumo trabalhar. Também falamos sobre o que está difícil no seu dia a dia, como está o seu sono, onde você se sente segura e quais apoios tem por perto.

Você não precisa falar sobre o trauma logo de início, nem em nenhum momento em que não se sinta pronta. Muitas vezes o começo é sobre estabilização e sobre construir confiança. Não há prazo definido: o tempo do processo varia e é conversado ao longo do caminho.

Perguntas frequentes

Quanto tempo dura a terapia para trauma?

Não há um número fixo. A duração depende de fatores como o tipo de trauma, se foi um acontecimento único ou algo repetido ao longo do tempo, a segurança que você tem hoje na sua vida, a rede de apoio, outras questões que estejam pesando e o ritmo em que você se sente confortável para avançar. Esse tempo é revisto em conjunto ao longo do processo.

Preciso falar sobre o trauma logo nas primeiras sessões?

Não. Você decide o que contar e quando. O início costuma ser dedicado a criar segurança, entender como o seu corpo reage e construir confiança, e isso pode ser feito sem relatar detalhes do que aconteceu. Quando e se falar fizer sentido, será no seu ritmo, com cuidado para que a história possa ser acolhida sem sobrecarregar você.

Terapia do trauma funciona online?

Pode ser feita online, por videochamada, desde que algumas condições estejam presentes: um lugar reservado onde você se sinta à vontade, boa conexão de internet e fones, se possível. Se em casa não houver privacidade ou segurança, conversamos antes sobre como organizar o encontro. Conheça os detalhes na página de psicóloga online para mulheres.

Como saber se o que eu vivi foi um trauma?

Uma pista é o efeito, mais do que o tipo de acontecimento. Se algo vivido continua mexendo com o seu corpo, o seu sono, as suas emoções ou as suas relações, vale conversar a respeito, mesmo que você ache que “não foi tão grave”. Só uma avaliação profissional pode dizer se há um quadro específico, como o TEPT.

Se você sente que é hora de cuidar do que ficou guardado, a primeira etapa é uma conversa, sem pressa e sem compromisso de falar sobre o que você não quiser. Você pode me chamar pelo WhatsApp (27) 98127-1317 ou pela página de contato, para atendimento presencial na Praia da Costa ou online.
Psicóloga Lorena Silveira · CRP 16/1805

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